Além da produção de filmes e vídeos que demonstram narrativas históricas a partir do ponto de vista Guarani Mbya, o cacique Ariel Ortega também atua,  na Tekoá Koenju, e junto aos Guarani das aldeias de São Miguel das Missões, em projetos e oficinas de confecção artesanal que por vezes ocorrem nas aldeias. A relação do artesanato com os povos Guarani remete a séculos de tradição destes saberes, pois estão relacionadas às vivências espirituais Guarani. Estes projetos existem em muitas comunidades Guarani Mbya, como o ocorrido na  Tekoá Tenondé Porã (São Paulo e São Bernardo - SP), em 2011.

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Através dos artesanatos, os Guarani Mbya realizam as pinturas que os protegem de presenças negativas. Ao mesmo tempo, os artesanatos servem para ensinar aos mais jovens sobre os animais, a flora, os saberes necessários para realizar atividades nas matas, e sobre as relações espirituais com os  Nhanderu (deuses) e espíritos da mata, que precisam ser respeitados para que os Guarani Mbya possam viver em paz, segundo o Mbya reko (modo de ser Guarani Mbya).

Mulheres Guarani Mbya na aldeia de Bracuí, em Angra dos Reis (RJ). Foto: Milton Guran, 1988. Disponível em https://img.socioambiental.org/v/publico/guarani-mbya/guarani_mbya_2.jpg.html. Acesso em 10/10/2016.

 

Como liderança Guarani Mbya, o cacique Ariel Ortega realiza a mediação entre o mundo guarni mbya e o mundo não indígena (juruá). Como as aldeias muitas vezes não tem condições para sobreviver apenas do que cultivam através do mbya reko (modo de ser Guarani Mbya), os povos Guarani tem realizado a venda de seus artesanatos, nos meios urbanos, ou nas  Tava (casas de pedra) deixadas pelos  Nhanderu Mirim, de modo a continuar sobrevivendo a partir de sua cultura, diante dos contatos com o mundo juruá… afinal, a relação com os não indígenas nunca foi, para os povos Guarani, uma questão de opção.

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Para produzir artesanatos, os Guarani Mbya precisam estar em  condições ambientais em que existam as árvores necessárias para extrair madeiras, os animais que existem na cosmo visão Guarani Mbya, e as condições e extensões necessárias para viverem seus  ritos e práticas religiosas, pois os artesanatos tem seus sentidos religiosos através dos seus usos nas tekoá (espaços onde os guarani mbya vivem seu modo de ser).

Foto: Vherá Poty e Danilo Christidis / Divulgação. Disponível em http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2015/08/os-guarani-mbya-apresenta-fotografias-de-aldeias-indigenas-do-estado-4824851.html. Acesso em 10/10/2016.

 

Os usos dos artesanatos no cotidiano das comunidades Guarani Mbya ocorrem em diversas situações, dependendo do tipo de artesanato. Instrumentos musicais, velinhas, recipientes, e o petynguá (cachimbo sagrado Guarani Mbya) são usados no  nhemongaraí (batizado Guarani Mbya), por exemplo. As cestarias são utilizadas para carregar alimentos ou crianças de colo. Por isso, os grafismos presentes na cestaria estão vinculados ao mbya reko, pois protegem os alimentos e as pessoas que dele se alimentam. Os alimentos Guarani Mbya possuem sentidos sagrados, pois foram deixados por Nhanderú para que os Guarani deles se alimentassem, e os guardassem. É o caso do  milho.

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Portanto, para haver tekoá (espaço físico e espiritual onde os Guarani Mbya vivem seu modo de ser), é fundamental que existam  condições ambientais para o plantio dos alimentos sagrados. Além do milho, existem outros alimentos sagrados, como a erva mate e o mel. Estes alimentos são consagrados nhemongaraí (batizado), quando os Guarani Mbya recebem seus nhe’e (espíritos protetores). Os alimentos também possuem espíritos protetores, que são homenageados nessas circunstâncias, e os alimentos são uma forma de manter o nhe’e por perto, até se juntar ao corpo das pessoas. Sem um ambiente para manter estes alimentos, não seria possível chamar os espíritos protetores, não podendo haver a purificação da pessoa Guarani. Assim, não seria possível o mbya reko (modo de ser Guarani Mbya). E sem o modo de ser Guarani Mbya, não pode haver tekoá (espaço onde os Guarani Mbya vivem seu modo de ser)…

Nhemongarai – Ritual sagrado das sementes

A cerimônia acontece na colheita do milho e coleta de outros alimentos, mel (Ei) e erva mate (ka’a). Esses alimentos são todos levados para a opy (casa de reza) para serem consagrados.

Sem o milho tradicional e os demais alimentos não haveria as cerimonias para o Nhemongarai (consagração e batismo), que envolve as pessoas da comunidade e também de outras aldeias que trazem seus alimentos para consagrar com os demais.

O Nhemogarai consiste em fazer uma consagração dos alimentos e das sementes antes de plantar e após na colheita, em muitos casos também são batizadas as crianças que ainda não tem o seu nome em Guarani. Sendo assim é realizado um grande cerimonial, para o qual, cada pessoa leva seu alimento ou sementes. (BARBOSA, 2015, p. 31).

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