As características, habilidades e cuidados que se devem atribuir a cada Guarani, são definidos pelo amba (morada celestial) de onde vem o nhe’e (espírito protetor), e principalmente, pelo nome do Guarani, que revela qual é o seu nhe’e. É assim que se decide as atividades de cada um nas aldeias. O nhe’e, que é identificado através do nome, é revelado no Nhemongaraí (batismo), conforme ensina a autora Guarani Sandra Benites, em seu trabalho de conclusão de curso:

O ritual do nhemongarai é fundamental para sabermos a personalidade e a habilidade de cada Guarani. Pois, conforme já dissemos, ao revelar o amba, sabemos o nome da mitã – nenê, e sabemos qual será o seu reko – jeito. Cada amba – morada divina, e cada tery – nome, implica: um jeito de ser, um agir específico para cada indivíduo. Quero dizer que o reko de cada Guarani depende do amba, mas principalmente do nome. O próprio nome exige certos tipos de cuidados, pois existem regras específicas para cada um deles. Essas regras devem ser seguidas rigorosamente no período nhe’egu e oguapy (para as meninas) e nhe’e guxu re (para os meninos). A partir daí, os pais passam apenas a observarem seus filhos, cabendo a responsabilidade maior de seguir as regras aos jovens.
Saber o amba e o tery da criança implica uma série de observações e cuidados por parte dos adultos nas fases, chamamos assim, das mitã (até os dois anos) e das kyringue (de dois até os doze/treze anos). Durante esses períodos, a responsabilidade de observar e praticar as regras é dos pais e avós, dos adultos que estão em volta da criança. Não podemos esquecer que esses adultos começam suas responsabilidades já com o sonho da gravidez.
Explicarei melhor através de alguns nomes Guarani, orerery. O primeiro ponto que eu gostaria de dizer é que, para nós Guarani, existem nomes femininos e masculinos. Por exemplo, Jekupe, nome masculino. Os homens que têm esse nome são mais vulneráveis. Ou seja, são mais fáceis de serem influenciados pelas pessoas ou coisas (boas e também ruins). Tudo dependerá do contexto onde eles vivem, do movimento das pessoas (como as pessoas vivem) e da observação e prática das regras. Ser Jekupe implica que ele pode ser o que ele deseja, mas isso depende muito dele, de respeitar as nossas regras. Nhanderu sempre nos tenta e é preciso saber resistir.
Jekupe circula muito, caminha muito. Eles têm uma visão muito ampla, conseguem interagir com todos os tipos de pessoas. Karai já é diferente. Eles têm a tendência de liderar, são mais sábios, orgulhosos também. Eles adoram isso e quando eu dava aula na escola de Três Palmeiras percebia claramente o papel de liderança dos karai. Nas atividades em grupo, os Karai kuery se destacavam, organizavam os grupos, se destacavam. Eles não têm medo, se arriscam mesmo. Jekupe kuery são muito medrosos, apesar de aparentemente mostrarem valentia. Karai kuery têm mais autoridade, poder de cuidar, de liderar, mas eles também devem seguir nossas regras, tomar cuidado para não impor muito, não ser autoritário. Eles devem saber qual é o limite deles. O perigo está no poder.
Assim como karai kuery, ser Ara significa que a mulher tem esse conhecimento de liderar, ser mais paciente, tranquila, compreensiva. Ela tem mais facilidade e sempre se destaca nas aldeias como mitãmbojaua, por exemplo. Por outro lado, assim como Jekupe, quem é Kerexu kuery é mais sensível, muda facilmente de opinião e de humor. São pessoas que aparentemente são mais caladas, quietas, discretas, tolerantes em alguns momentos. Diferente de jurua kuery os nossos nomes têm função, implicam responsabilidades e cuidados.
Através da omoexakã do nome dos nossos filhos sabemos como agir com eles, como lidar com eles. Assim, nos preparamos para lidar com os filhos, pois cada um tem um jeito de ser, requer cuidados específicos – Jekupe e Kerexu são os que mais inspiram cuidados. Fazemos isso até a ‘fase’ de kunumim (meninos) e kunhatãi peve (meninas). Nessa ‘fase’ de puberdade – como dizem os jurua – que começa a responsabilidade maior da pessoa, do ser Guarani. Caberá ao/a jovem seguir as normas do nosso reko. Nesse momento, os pais, as lideranças, a comunidade observam, prestam mais atenção nesses jovens. Sempre aconselham eles nas reuniões – agora já participam das reuniões, das atividades no tekoa.

Figura 1: Aprendendo, praticando – jovens na aldeia de Sapukai. Foto: Prefeitura de Angra dos Reis – 2014.

 

Na verdade, eles são convidados a participarem das atividades no tekoa, de acordo com a capacidade deles. Os meninos trabalham nos mutirões, na roça plantando, cortando lenha. Eles sempre trabalham com os mais velhos, responsáveis pela transmissão dos conhecimentos. Os mais velhos ensinam a eles como fazer as coisas e os jovens começam a praticar esses saberes. É trabalhando que eles vão escutando as histórias de vidas dos mais velhos, ouvem conselhos sobre vários assuntos: casamento, família, aprendem como tratar as mulheres, falam sobre bebidas, o que fazer quando tem filhos, etc.
Nessas horas é que os mais velhos contam as histórias da origem do nhandereko, narram os mitos sagrados, as narrativas tradicionais. Os conselhos, os conhecimentos são transmitidos na Opy, mas é trabalhando, praticando que eles aprendem. Por isso é que os xeramoi sempre convidam os rapazes para as atividades – é ouvindo e praticando que eles aprendem. Se os meninos devem se movimentar, as meninas devem permanecer no resguardo, num lugar específico. (BENITES, 2015, p. 18-20).

O Karaí Aristides da Silva, que vive atualmente na Tekoa Tarumã Mirim, em Araquari/SC, em seus ensinamentos, alerta para os cuidados que se deve ter para descobrir e seguir o seu nome verdadeiro, e os problemas de ganhar um nome que não é o seu, ou não ter o nome completo revelado…

[…] É Nhanderu que, antes de vir à Terra, já define o que cada nhe’ẽ vai fazer aqui, e isso depende de qual região ele está vindo. Então, o onhemboery va’e [aquele que descobre o nome] faz o Nhemongarai e coloca os nomes nas crianças. Ele faz isso porque Nhanderu mesmo definiu que esse seria o seu trabalho. Mas é difícil, para nós, saber o nome verdadeiro da criança, é um trabalho bem pesado. Cada xeramõi tem o próprio trabalho. É Nhanderu que dá. Se você trabalha só para colocar o nome em Guarani, então você é onhemboery va’e. Você pode trabalhar com as crianças, ou com os adultos. Se Nhanderu deixou você sozinho pra colocar os nomes, você tem que ter mbaraete (força). Não é só uma criança que está no meio de nós, são muitas aqui na Terra; por isso tem que ter força. Tem que perguntar ao pai dela [ao pai lá no alto, nas moradas dos Nhanderu], de qual lugar está vindo. […] Antigamente, o onhemboery va’e perguntava àquele [nhe’ẽ] que está em cima dele, ojapyxaka (aquele que sabe escutar), qual é o nome da criança, e esse vai falar com outro, até chegar em Nhanderu Ete que vai contar para que veio essa criança, qual é o nome e o trabalho dela aqui na Terra. Então, aquele que fica em cima do onhemboery ilumina (omoexãka), conta para o onhemboery, e este fala aos pais da criança. Hoje, é cada vez mais difícil saber de onde viemos, de qual tetã (cidade) dos Nhanderu veio o nosso nhe’ẽ: se foi do norte, do sul, do leste ou do oeste – de Karai, de Tupã, de Jakaira ou de Nhamandu. Se alguém tiver uma filha ou um filho enviado de Karai retã, então é Karai Ete quem vai enviar a criança. Só que vai enviar ela sozinha. Aí, quando nasce, ela vai querer outra criança para acompanhá-la, para ser amigo, porque ela não está muito feliz sozinha (ndaipy’aguaxu porã). Às vezes, tem o nome de Kerexu se for menina e, quando for menino, Karai. Mesmo enviando de Karai retã, não é só um Nhanderu que envia seus filhos, têm vários. Assim, cada nhe’ẽ tem um sobrenome diferente. Se o seu nhe’ẽ for de Nhamandu, o seu nome vai ser Kuaray Papa, esse é o nome verdadeiro. Se a criança for de Kuaray, ela é mais sensível (fraquinha).
Só os mais antigos que sabiam mesmo falar sobre os nomes. Se você tiver o nome, mas não falaram o sobrenome, você vai viver, mas não tão bem. Vai ficar sempre doente, triste. Onhemboery va’e pode dar o nome, mas se o seu nhe’ẽ não contou o sobrenome, ele não vai saber. Você vai vivendo assim, triste. Então, Nhanderu vai iluminar pra você o seu sobrenome, ou vai mandar um filho como uma forma de fortalecer você. Mas só que você tem que tentar se consultar com onhemboery va’e, perguntar a ele: “o que posso fazer para ficar bem?”. Às vezes, você pode não estar bem, porque não lhe deram o seu nome verdadeiro. Aí, se ele souber, ele vai contar o seu nome verdadeiro. Ele vai contar, e você vai viver feliz, forte. Hoje nós, os mais vividos, não temos muito disso, de ficar triste, de sentir tristeza. […].

Xeramõi Aristides da Silva – Karai
(Tekoa Tarumã Mirim, Araquari/SC)
In: AFFONSO, Ana Maria Ramo y. LADEIRA, Maria Inês. (Orgs). Guata Porã/Belo Caminhar. São Paulo: Centro de Trabalho Indigenista, 2015. (Projeto pesquisadores Guarani no Processo de Transmissão de Saberes e Preservação do Patrimônio Cultural Guarani – Santa Catarina e Paraná/ Agosto de 2014 – Novembro de 2015), p. 22-23.