As histórias contadas pelos mais velhos são formas de viver a cultura Guarani Mbya. Por isso, as comunidades Guarani Mbya realizam encontros, para narrar suas histórias, ensinar novas formas de confecção artesanal, contarem suas situações, e organizarem as ações e decisões dos movimentos indígenas. Ao mesmo tempo em que é uma prática de ensinamento das tradições do mbya reko (modo de ser Guarani Mbya), os encontros também são um caminho para que as lideranças discutam a situação das Terras Indígenas Guarani Mbya. Antes da chegada dos juruá (não indígenas), os Guarani Mbya mantinham uma concepção de territorialidade em que a mobilidade era sua forma de vida, devido às concepções  religiosas que guiam os povos Guarani. Esta relação exprime a coletividade vivida entre os povos Guarani. Após a Constituição de 1988, e início do processo demarcatório das Terras Indígenas, os Guarani Mbya vivem sua territorialidade a partir das visitas e do trânsito entre as tekoá (espaços em que os Guarani mbya vivem seu modo de ser), durante a visita dos parentes, ou encontros para a troca de saberes, sementes e outros objetos e materiais que mantem o mbya reko (modo de ser Guarani Mbya).

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Os encontros são organizados pelas lideranças espirituais e políticas das aldeias. As histórias Guarani Mbya contadas nestes encontros, estimulam a troca de experiências e saberes, que possibilitam novas formas de interação com os ambientes de seus territórios, através de ensinamentos e elaboração de técnicas agrícolas, trocas de sementes, novos tipos de artesanatos.

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A falta de sementes e de terra fértil para o cultivo dos  alimentos sagrados é um grande problema nas comunidades Guarani Mbya… por isso, a prática da troca de sementes nos encontros realizados pelos movimentos indígenas e lideranças, é um recurso cultural importante, no diálogo entre as aldeias…

Poucas famílias da aldeia ainda cultivam algumas sementes tradicionais nas roças que fazem em volta de suas casas, isso para consumo e também tirar sementes para que não se percam, e que elas possam ser plantadas no ano seguinte e assim passar esses conhecimentos para seus filhos e netos. A agricultura Guarani está ligada ao mundo espiritual e de alguma maneira está se manifestando no Nhemogarai (consagração dos alimentos) ou na troca de sementes com outras aldeias. Essas famílias que cultivam nas comunidades são nossos espelhos no modo vida por terem disposição no seu dia a dia, diferentes dos outros que vivem estressados com seu cotidiano.

Algumas famílias têm conhecimentos e por não ter uma terra fértil não querem dar muita importância, e outras não têm conhecimento, e não procuram saber, deixando a agricultura de lado para ir trabalhar fora da aldeia e comprar os alimentos do mercado, achando que aquilo é mais saudável do que nosso próprio cultivo. (BARBOSA, 2015, p. 20-21).

Muitas vezes, as comunidades Guarani desenvolvem novas formas de saberes relacionadas à agricultura e ao uso de seus territórios, a partir das vivências entre as comunidades e com a sociedade juruá (não indígena). Estão abertos ao diálogo, tendo o mbya reko (modo de ser Guarani Mbya) como orientador de suas decisões, e de sua forma de encarar a realidade.

Buscando novas possibilidades de cultivos que possam ser parecidas ou semelhantes aos dos Guaranis podendo se adequar a ele. Para que isso aconteça é preciso buscar conhecimentos de fora de que seja favorável aos indígenas atendendo sua perspectiva. O maior desafio é encontrar pessoas dessa nova geração capacitadas e com disposição para isso tendo em vista que poucos se interessam em agricultura por ser um trabalho pesado e que muitas das vezes não trazem lucro nenhum para sua família, com uma visão capitalista que não pertence ao povo Guarani. Buscar trabalhar nas escolas indígenas sobre agricultura tradicional mostrando seus benefícios para a cultura com a presença de nossos anciões para continuar firme e forte porque o mundo Guarani está ligado sem divisões ou gavetas, aquelas criadas pelo djurua kuery. Também devemos preservar nossas sementes tradicionais não deixando misturar com sementes dos djurua kuery, por não ter esse cuidado muitas estão se perdendo. (BARBOSA, 2015, p. 37).

A troca de sementes através dos encontros é também uma forma de reavivar os saberes de algumas comunidades que buscam relembrar práticas tradicionais, muitas vezes afetadas pela invasão juruá (não indígena) … ao se encontrar com os parentes, caminhar à outras aldeias, os Guarani Mbya estão mantendo sua relação de mobilidade com os territórios que ocupam, o que é uma prática antiga em sua cultura territorial, de ressignificação de acordo com os processos históricos vivenciados pelos povos Guarani. A mobilidade Guarani Mbya está relacionada com o uso coletivo da terra, estando abertos para os parentes de outras aldeias, pelas quais podem transitar quando suas terras estão demarcadas.

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