Pauliciana protegia e liderava espiritualmente a tekoá Koenju, já que ela era Kunhã Karaí (liderança espiritual). Por ser anciã, também transmitia os saberes sobre o mbya reko aos mais jovens, para que todos e todas pudessem seguir o  belo caminhar, e se precaver das influências negativas e danosas, de maus espíritos, pessoas e suas áureas, e para aprenderem como viver bem, para poderem  alcançar Yvy Marã e’i (Terra Que Nunca Vai Acabar). Assim, os guarani mbya de sua comunidade aprendem a se relacionar com o mundo que os cerca, e com as outras pessoas, buscando viver da melhor forma, dentro do Nhandereko (sistema cultural guarani mbya). Pauliciana é xejary (avó, anciã, mais velha), e aprendeu as histórias e o modo de ser dos povos guarani ao longo de sua vida, com os mais velhos da época em que era jovem. Como ela aprendeu? Não foi indo na escola, certamente, pois em sua época de escola, os juruá (não indígenas) tentavam ensinar aos povos indígenas a abandonar suas culturas. Pauliciana aprendeu a viver o mbya reko (modo de ser mbya guarani) observando as pessoas de sua comunidade, e ouvindo as histórias que lhes contavam, assim como os ensinamentos dos mais velhos. O ato de ouvir, entre os guarani mbya, é imprescindível e sagrado, pois os guarani mbya ensinam através da  oralidade. Os sentidos da oralidade guarani mbya não estão presentes apenas nas palavras, mas também no ritmo em que uma história é contada, no tom e volume de voz, nos gestos e articulações do(a) narrador(a), e também tem a ver com quem conta a história. Por isso, os guarani mbya aprendem desde criança a ouvirem, prestarem atenção, e se concentrarem, para poderem, coletivamente, meditar. Estas histórias são transmitidas através das mitologias guarani mbya, e nesses momentos, o uso do petynguá (cachimbo sagrado) é muito importante, para meditar e ser ouvido pelos deuses. Os guarani mbya também vão aprendendo a valorizar o petynguá, pois a sua importância está presente nas histórias narradas.  Leia este conto guarani mbya:

A terra e a água

E o Xeramõi continuou falando da terra, da água, e de toda a natureza. Como eu gostava de ouvi-lo contar essas coisas! …

– A terra é a nossa mãe que nos ampara e nos alimenta como bebê no colo. Saímos do ventre dela para viver no seu colo e, depois, voltamos para o seu ventre a fim de que outro viva nossa vida.

Eu fiquei curioso, sem saber como era isso, e perguntei:

– O senhor quer dizer que vai haver outro vivendo nossa vida?

Ele riu e me olhou um instante, depois respondeu:

– É o lugar que outro ser ocupa no nosso lugar no seio da mãe Terra. Esse outro pode ser uma outra pessoa, uma árvore ou um animal qualquer que vai nos substituir.

Eu achei muito interessante o que ele me falou sobre a terra.

– Terra para nós é nhandeyuyrupa, que significa colo da terra ou lugar onde deitamos para descansar. “Terra como estrado, firmeza dos nossos pés”, berço, colo, cama…

Estava chovendo durante a nossa conversa. A água corria na beira da casa, através das palhas da cobertura feita de palmeira, e ele se lembrou de nos falar sobre a água.

– O que é muito sagrado para nós é Yy, a água.

A água é como se fosse um veículo de Nhanderuete. Assim como Nhanderuete, a água está em todos os seres vivos. Nhanderuete está em todo lugar, em todo o tempo. A água também está em tudo o que é vivo, em todo o tempo. Quando quer nos falar bem pertinho, Ele vem sobre as nuvens e, pela da água e da chuva, Ele se comunica. Quando está chovendo, Nhanderuete vem nos visitar.

A água não tem fim, nunca aumenta e nem diminui. Vai passando de um ser vivo para o outro ser vivo. Desde que existem seres vivos, a água vem passando de um ser para outro. Hoje está no meu corpo, amanhã está numa árvore… A água que estava nos nhaneramõi, nossos antepassados Kuery, há 5000 anos, hoje, está em nós e em todos.

Para nós a chuva é o caminho de Nhanderuete. Quando chove, Ele está passando nas nuvens, que são como se fossem seu carro.

Na hora que está chovendo forte, com relâmpagos e trovões, temos que ficar em silêncio. É hora em que Nhanderuete poderá estar passando bem perto de nós e quer nos proteger. Nhanderuete sabe quando existe algum nhe’e vai, Espírito mau, querendo fazer mal aos Guarani.

– Porque pode ser que um nhe’e vai esteja na nossa aldeia ou perto da nossa casa. Então, Nhanderuete solta uma brasa de fogo (Overá, Relâmpago) com toda a força e acaba com ele. Quando tem algum espírito mau querendo nos prejudicar, Nhanderuete passa expulsando com o barulho da água, o tupã yyapú, Trovão.

Durante a trovoada, todos nós ficamos bem quietos. Só o pita’ í va’ e, o líder religioso, pode ficar usando o petyngua, cachimbo. A gente não pode falar, nem fazer alguma coisa, nem comer nessa hora. Acendemos o fogo e ficamos ao redor sem fazer barulho, para deixar o yyapú fazer seu trabalho. O líder religioso, com o seu cachimbo, faz fumaça para dar o sinal a Nhanderuete que estamos aqui.

ANTUNES, Adão Karaí Tataendy. Palavras do xeramõi / Adão Karaí Tataendy Antunes; ilustrações de Gennis Martins Timóteo. – Florianópolis, SC: Cuca Fresca, 2010, p. 11-15.

Os mais velhos costumam transmitir os saberes do mbya reko durante as cerimônias na Opy (Casa de Reza). Mas a mitologia guarani mbya se mantem viva ao longo do cotidiano, enquanto as pessoas trabalham, festejam, enquanto entoam canções, ou durante rituais religiosos. As conversas na Opy costumam ser acompanhadas de uma fogueira, e de uma cuia de chimarrão, ou outras bebidas derivadas da erva mate. O que não pode faltar, é o uso do petynguá, principalmente quando as lideranças espirituais realizam narrações sobre os deuses, pois a Tataxina (fumaça sagrada do petynguá), permite aos deuses descer pela fumaça, e conversar com as lideranças. Foi assim que Karaí Tataendi comunicou que a queda do raio que atingiu a árvore na Tekoá Koenju se tratava de um sinal dos deuses, e precisariam construir uma nova Opy na aldeia, para concentrar esforços nas meditações, e se reaproximar do mbya reko. Perceba que a história contada por Karaí Tataendi, está relacionada com o conto da terra e da água: os raios são enviados por Tupã, para proteger a tekoá dos espíritos maus, pois os guarani mbya vivem dentro desta disputa entre os deuses e estes espíritos, sendo preciso meditar e viver dentro do mbya reko, para estarem sempre protegidos pelos deuses. As palavras guarani mbya, portanto, são manifestações dos deuses nos guarani: são como “bicicleta dos deuses”, segundo Karaí Tataendi. Os mitos estão todos conectados, e cada um os narram de diferentes formas, dependendo da idade, da aldeia onde vive, da morada de seu Nhe’e, e do ponto de vista de cada guarani mbya.

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A narração das histórias possibilita muitos aprendizados, sobre a natureza, e sobre as coisas invisíveis, aquilo que os guarani mbya só conhecem através dos deuses. O petynguá é utilizado coletivamente, nestes momentos, para meditar (a não ser nas aldeias em que somente as lideranças espirituais usam o cachimbo). Alguns saberes transmitidos durante as narrativas mitológicas, ficam evidentes durante o conto da  criação do segundo mundo, onde estamos hoje, pelos deuses Papa Mirim e Xãriã.

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