Nos tempos antigos, o cesto era utilizado pelas mulheres para carregar as sementes de milho para levar para plantar na roça e também carregar as crianças. Hoje os Guarani Mbya, produzem para vender e têm o artesanato como principal fonte de subsistência. Em algumas aldeias, está difícil a matéria-prima, pois as matas estão escassas, quase não se usa mais as tintas vegetais e sim tintas compradas na cidade. (SILVA, 2015, p. 10).

            Seu Roberto também explica o porquê das comunidades Guarani começarem a vender seus artesanatos:

Seu Roberto Conçalves,120 anos, um dos primeiros moradores da aldeia Gengibre.

“Antigamente se fazia balaio só para trazer milho, batata, mandioca, amendoim, peixes e frutas colhidas da mata. Hoje a maioria das pessoas fazem para vender, porque não temos mais matas e nem peixes. Então temos que vender os artesanatos para trazer alimentos para nossas crianças”. (SILVA, 2015, p. 21).

Deste modo, muitas vezes algumas técnicas começaram a ser desenvolvidas, a partir destas novas experiências culturais:

Às vezes ou alguns Guarani, fazem outros desenhos para vender. Então varia desde o tamanho, o formato e o grafismo preferido ou quando alguém encomenda. […] (SILVA, 2015, 23).

Também passaram a surgir novos estilos, com significados que não são sagrados para os Guarani, pois não se relacionam com o mbya reko (modo de ser Guarani Mbya). Mas a espiritualidade vivida na aldeia, tem como base material a venda destes artesanatos, que complementam a renda das comunidades Guarani…

Hoje já são feitos desenhos do estilo Ta`anga que não tem significado sagrado, pois são feitos para comercializar para os não-indígenas. Então o artesão já desenha e pinta com tintas coloridas e faz desenhos diversos para chamar a atenção já que os Juruá não entendem sobre a simbologia e a história Guarani. (SILVA, 2015, p. 15-16).

Devido a esta condição de renda, muitos Guarani passam os dias vendendo os artesanatos nas cidades, ou coletando material e confeccionando os objetos. Algumas linhas artesanais são mais vendidas na cidade, existindo projetos para que estes saberes se mantenham vivos. Estes projetos estão relacionados ao contato com as cidades, e a resistência dos povos Guarani, através de sua memória, que mantem sua cultura, através do repensar como manter o mbya reko (modo de ser Guarani Mbya) diante das novas situações e contatos…. Portanto, estes projetos partem também do consenso e da organização das próprias comunidades Guarani Mbya.

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Além da renda, por não estarem em condições propicias para viverem apenas do plantio, os artesanatos estão carregados de simbologias religiosas, mesmo se afastando dos significados tradicionais. Isso por que a própria prática artesanal está emergida na espiritualidade das práticas Guarani Mbya cotidianas…

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Por falta de lugar para plantar, muitas vezes o artesanato se torna uma das poucas fontes de renda das comunidades Guarani Mbya, como aponta seu Avelino Gimenez, liderança da Aldeia de Barra do Ouro:

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A venda do artesanato é também uma estratégia para viver o mbya reko (modo de ser Guarani Mbya) nos espaços urbanos. Como explica seu Timóteo de Oliveira, os artesanatos são importantes para lembrar doa animais que existem nas matas dos Guarani Mbya, e que estão sumindo, assim como os saberes que envolvem a sua produção, e outros elementos naturais que estão se tornando escassos, quando já não se perderam…

NOME: Timóteo de Oliveira

IDADE:53 anos

ONDE NASCEU: Aldeia Cantagalo- RS

ONDE MORA: Aldeia Morro da Palha

PROFISSÃO: Artesão

[…] Timóteo de Oliveira conta que antigamente os guarani faziam todos os tipos de artesanatos: alguns bonecos de madeira no formato de homens e mulheres que deixavam no caminho por onde passavam, assim por diante. Antigamente faziam para deixar como marca de caminho. Hoje os artesãos fazem os artesanatos em madeira no formato de pequenos bichinhos, para vender. Antigamente não vendiam, faziam para mostrar para os outros, para as crianças e os mais jovens. Ele fala da importância dos jovens aprenderem a fazer, porque assim vai continuando o conhecimento dos passados, porque os bichinhos que existiam por aqui, muitos já não conhecem mais.

Por isso é importante mesmo manter esses conhecimentos porque talvez daqui a cinquenta anos não vai ter mais os animais – explica Timóteo. Talvez ninguém mais vai ver os animais como tatu, quati, mas através dos artesanatos poderão ver e ter alguns conhecimentos ainda.

Há muito tempo atrás, havia muitos animais, mas hoje em dia não se vê mais os bichinhos. Mas através dos artesanatos ainda tem como repassar os significados, os conhecimentos, pois é os jovens que daqui para frente tem que continuar com esse conhecimento para repassar as futuras gerações. Assim a nossa cultura não acaba porque através do artesanato poderão ser repassados mesmo que daqui a alguns anos esses animais não existem mais. Nas casas, são guardados para contar e dizer para as crianças que aqueles trabalhos foram feitos pelos avós é daquele tipo de animais que existia no mato, mas que hoje não se encontram mais e assim poderão manter os conhecimentos. (GONÇALVES, 2015, p. 12-13).

Muitas vezes, os Guarani Mbya vão à mata para caçar, ou plantar, mas acabam tendo que lidar com os impactos ambientais causados pela invasão juruá (não indígena), como demonstra o Guarani Mbya Mariano, na Tekoá Koneju, em uma denúncia realizada no filme produzido pela cacique da Aldeia, Ariel Ortega, no filme Mokoi Tekoá Petei Jeguatá – Duas aldeias, uma caminhada (2008). Segundo uma das anciãs da aldeia, os Nhanderú já sabiam que os Guarani iriam teriam suas terras encurtadas… então fizeram com que os Guarani soubessem a arte dos bichinhos de madeira, para seduzir os juruá (não indígenas), e não morrer de fome…

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Muitas vezes, as comunidades Guarani Mbya do Rio Grande do Sul, como na Tekoá Koenjú, vendem seus artesanatos nas Tava (, as antigas reduções jesuíticas em que muitos Guarani acreditam que foram construídas por seus ancestrais, os Nhanderú Mirim, durante sua caminhada sagrada. Assim, vender os artesanatos nas Tavas, implica em manter a caminhada do mbya reko (modo de ser Guarani Mbya)…

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Em meio a esta escassez dos mios naturais vividas em muitas aldeias, os filhos em idade infantil estão sempre acompanhando os pais, pois mantem um laço muito forte principalmente com a mãe. Assim, desde a coleta de materiais na mata, até a venda artesanal nas cidades, as crianças acompanham, e aprendem sobre o Nhandereko (modo de viver Guarani Mbya).

O artesanato é feito da madeira chamada de “caixeta” – uma árvore nativa que se encontra na floresta da aldeia. Essa madeira para fazer o artesanato tem que ser colhida no tempo certo pra não estragar. Se não for colhida no tempo certo, estraga muito fácil e a madeira é desperdiçada. Assim, todo o processo de preparo do artesanato envolve aprendizagem, pois a criança aprende quando o pai vai na floresta colher a madeira para fazer o artesanato. Quando isso acontece, o filho vai junto para acompanhar e observar. Assim, o pai faz o bichinho de madeira e conta para seus filhos os significado dos animais que existiam na terra indígena Yynn Moroti Whera.

Hoje não se encontram muitos desses animais na mata, que se tornou cada vez mais escassa, rodeada pela cidade. Mesmo assim, o filho vai aprendendo observando, brincando de fazer o artesanato de madeira, até que ele começa a praticar e fazer ele mesmo. (GONÇALVES, 2015, p. 9).

As crianças também estão sempre acompanhando os pais para que não tenham responsabilidades de adultos. Assim, a transição para a fase adulta, não ocorre como na cultura dos juruá (não indígenas), em que as crianças são inseridas desde cedo em creches, e de forma artificial, vão se “adultizando”: vão aprendendo com naturalidade, brincando, e estando próximas dos pais constantemente.

As crianças são frutos da natureza de Nhanderu, são chamadas de crianças porque não tem grandes responsabilidades como os adultos. Ficam sobre as responsabilidades dos adultos, pai mãe, irmãos, avós, tios, ou até mesmo a comunidade tem responsabilidade de cuidar. (MARTINS, 2015, p. 22).

Assim, principalmente no contato com a mãe, as crianças Guarani (kyríngué) vão aprendendo os saberes do mbya reko (modo de ser Guarani Mbya) …

A criança até ir à escola fica só com a mãe, os ensinamentos e educação é a mãe que passa, pois seu contato é maior com os seus filhos. Sendo que o pai muitas das vezes sai para trabalhar e fazer outros afazeres relacionados à subsistência dos mesmos.

As crianças em geral na aldeia aprendem os costumes observando as pessoas que as rodeiam. Como por exemplo, na confecção de cestaria e outros artesanatos. (MARTINS, 2015, p. 45-46).

(Ângela de Oliveira, artes na escola). Foto: (Davi Timóteo Martins). (MARTINS, 2015, p. 46).

 

Além do artesanato, os mitos, narrados através da oralidade ( ) dos mais velhos, também são uma importante forma de educar e ensinar as crianças…

Os meninos acompanham os mais velhos na roça, na mata e os compromissos são exigidos para eles, principalmente se ele for o filho mais velho da família. Já as meninas ajudam a cuidar dos irmãos mais novos, cuidam da casa e acompanham suas mães nos afazeres domésticos e nos artesanatos. Por este motivo não existe adolescência, ou é criança ou é adulto. Nessa fase é onde a educação acontece, principalmente através de mitos […]. (ANTUNES, 2015, p. 21).

Apesar das pessoas Guarani Mbya manterem um vínculo muito forte entre as crianças e seus pais, as cidades não indígenas não levam esta cultura em consideração. As variedades artesanais Guarani Mbya, muitas vezes são vendidas nas calçadas, e o poder público nada faz para acomodar as crianças que acompanham os adultos, durante a venda artesanal. Entre os principais fatores que contribuem para esse descaso do poder público, pode-se apontar o desconhecimento da cultura Guarani, sem haver o entendimento da importância dos laços entre pais e filhos, e da forma como a criança aprende e é educada, a partir do mbya reko (modo de ser Guarani Mbya)…

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