Para a formação da pessoa Guarani Mbya, é preciso deixar fruir a forma coletiva como os Guarani aprendem. Através dos cantos, da relação com o ambiente, da observação, e narração de histórias, observa-se uma relação que é muito presente na cultura Guarani, de aprender através de várias formas de sensibilidade, convivendo uns com os outros, trocando saberes através da observação. Nas aldeias, Guarani Mbya, como na  Tekoá Yynn Moroti Whera, as escolas Guarani Mbya buscam ensinar a partir destes princípios, compreendendo que os sentidos dados à educação estão relacionados à tradição Guarani Mbya.

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Em outra aldeia localizada em Biguaçu, a professora Marcia Antunes também aponta para a necessidade de ensinar a partir da sensibilidade do mbya reko (modo de ser Guarani Mbya). O tempo do aprendizado é diferente. Em relação aos ritmos, os professores precisam se adequar ao tempo das aldeias, estando atentos para os diversos rituais e práticas tradicionais que permeiam a vida dos Mbya. A relação com os anciões da aldeia é essencial, para garantir que o conhecimento escolar tem um sentido intercultural, aprendendo-se conhecimentos sobre o mundo não indígena, através das necessidades e concepções das comunidades Guarani Mbya.

ENTREVISTA COM MARCIA ANTUNES: Tive a oportunidade de entrevistar a professora guarani, Marcia Antunes Martins, da Escola indígena de Ensino Fundamental Taguató, da aldeia Indígena ITANHA’EM – Morro da Palha – Município de Biguaçu Estrada geral Timbé. […] Ela afirma finalmente que o alfabeto em cada aldeia é diferenciado, também destacando que quando chove ou quando a mãe vai vender artesanato, as crianças as acompanham e por isso faltam as aulas. Isto demonstra a questão complexa do estudo da educação escolar entre os índios, assim como a necessidade de se considerar as variantes regionais, ou seja, o contexto onde está inserida cada comunidade guarani. (MONGELO, 2015, p. 21-22).

A formação dos professores indígenas também é uma condição fundamental, para que a educação escolar Guarani atenda às necessidades das aldeias. Por isso, as universidades vêm disponibilizando programas de faculdade voltados para a licenciatura indígena, e outras propostas para que os povos indígenas realizem curso universitário. Entretanto, as condições ainda são bastante reduzidas, e boa parte das pessoas das comunidades indígenas não conseguem acessar a educação universitária. Para pensar a situação das escolas indígenas do país e as relações culturais em que se dão o processo de ensino e aprendizagem, desde 2009 são realizadas conferências entre representantes e lideranças indígenas, movimentos e comissões indígenas, órgãos governamentais e instituições indigenistas. Estas conferencias são denominadas de Conferência de Educação Escolar Indígena – Coneei. As Coneei são realizadas inicialmente através de reuniões entre o setor educativo do poder público e as comunidades indígenas; em seguida, realizam-se as reuniões regionais, para posteriormente se chegar em propostas para serem decididas em conferência nacional. O objetivo é discutir formas de realizar uma educação diferenciada nas aldeias, e de qualidade. Assista a um vídeo de divulgação, do Ministério da Educação (MEC), divulgando a II Coneei.

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Abaixo, você encontra outro vídeo do MEC, do ano de 2016, sobre a Coneei, anunciando a Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena, que está prevista para o final do ano de 2017.

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Portanto, conforme aponta o representante indígena do Fórum Nacional de Educação Indígena Gersem Baniwa, é papel do Estado garantir o reconhecimento às diferenças culturais, das quais os povos indígenas, tais como os Guarani Mbya, não abrem mão. Entretanto, a realidade escolar nas aldeias enfrenta muitas limitações. A falta de oferta de ensino médio nas escolas indígenas, muitas vezes, faz com que os Guarani Mbya, quando atingem certa idade, tenham que estudar em escolas não indígenas, as quais não estão preparadas para trabalhar a partir de uma perspectiva de valorização do mbya reko (modo de ser Guarani Mbya). Isso acarreta, muitas vezes, na desmotivação dos jovens indígenas ao estudo. Esta realidade revela um pouco da desigualdade social que se estende por séculos aos povos indígenas: a negligência de condições favoráveis para o seu acesso à educação. Conforme analisam os historiadores Ana Lúcia Vulfe Nötzold e Clovis Antonio Brighenti, em 2009, durante a Primeira Conferência de Educação Escolar Indígena – I Coneei, a Comissão Guarani Nhemonguetá elaborou um documento tecendo críticas ao modelo de escola em funcionamento nas suas aldeias e ofertando propostas para superação das debilidades. As discussões resultaram na produção de um documento público. Nesse período de oito anos as escolas foram sendo concretizadas, mais pela força da obrigatoriedade do que do desejo das comunidades. Essa forma impositiva não permitiu que determinados aspectos pudessem ser melhor trabalhados. Ficando evidenciado no início da análise da Nhemonguetá:

A escola hoje é ainda um espaço mais voltado para apropriação do conhecimento e das pedagogias da sociedade não-indígena do que de nosso povo. A escola é mais um espaço da presença e dominação do Estado em nossas aldeias – “Embaixada do Estado” em nossas aldeias – do que propriamente um espaço apropriado pela comunidade, inserida na vida da comunidade. A escola é um espaço apartado, com estrutura e regras diferentes da comunidade, onde as crianças e os professores devem se portar diferentemente da vida cotidiana na aldeia. (Documento à I Coneei 2009). (Brighenti & Nötzold, 2010, p. 32).

O documento a I Connei faz referência ao documento produzido em 2001, demonstrando a continuidade do debate e apresentam a distinção entre educação escolar e educação Guarani:

Fizemos um debate de como era a educação Guarani antes do juruá: …antes do juruá não precisávamos de escola, o alimento não era armazenado, a vivência era coletiva. O calendário Guarani era baseado na natureza, na floração de uma árvore ou no canto de um passarinho. Para plantações e colheitas, o clima e as estações baseavam-se no canto dos pássaros. A reprodução dos animais e do ser humano era conforme o ciclo da lua.

Os anos também eram contados conforme a natureza. O ano novo começa com Ara Pyau, que no calendário juruá seria a primavera. A época da floração das árvores, no começo do plantio e também nesta época, os animais começam a se reproduzir. O calendário não está baseado em dias do ano para se comemorar uma data.

O manejo era o cuidado com a terra, por exemplo: quando se constrói uma aldeia, na mata, onde se planta e constrói casas, com o passar do tempo a terra vai enfraquecendo, para fortalecê-la novamente, antigamente, as pessoas mudavam para outro lugar e deixavam tudo que tinham construído, casas, roças e outras plantações. Com o passar do tempo aquela construção servia como adubo para a terra, por que não existia lixo e tudo era orgânico.

Educação Escolar Indígena depois de 1500: Com a chegada dos europeus tudo foi mudando. A natureza sendo destruída e tudo passou a ser comercializado e a nossa cultura começou a ser mudada e dominada pela cultura envolvente. A partir do momento que a nossa cultura começou a ser dominada pela outra cultura, fomos obrigados a participar da escola juruá, e participando da escola, tivemos a necessidade de adaptar-se dentro da aldeia. (Documento à I Coneei 2009). (Brighenti & Nötzold, 2010, p. 32-33).

Segundo a Carta da Comissão Nhemonguetá, um dos principais problemas enfrentados no gerenciamento da escola e na sua relação com a Secretaria de Estado da Educação é a dificuldade de aplicar formas próprias na escola. Segundo a Comissão Nhemonguetá, o governo alega que o sistema que gerencia a educação escolar é único para toda rede pública estadual. Defendem que os povos guarani não podem ter calendário específico ou forma própria de avaliação se não conseguem colocar os dados no sistema. Dessa forma sugerem o seguinte:

criação de um Sistema Único de Educação Indígena Guarani ligado ao MEC. Esse sistema deve prever os distritos de educação escolar indígena, como instâncias técnico-administrativas autônomas, para que nossas comunidades possam exercer controle nas políticas de educação. Entendemos que esses distritos devem ter autonomia financeira e administrativa para que neles seja garantido o respeito a forma de nosso povo pensar, viver e se organizar. Entendemos que essa proposta deve ser levada à debate a todo povo Guarani. (Documento à I Coneei 2009). (Brighenti & Nötzold, 2010, p. 33-34).

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